Uma produção que utilizasse materiais de má qualidade ou qualidade inferior, o kitsch ou simplesmente uma obra que tivesse ampla aceitação e caísse no gosto popular era considerada uma arte menor, incluindo as artes decorativas ou aplicadas, designação que desapareceu na cena da arte contemporânea atual. Grandes artistas como Beatriz Milhazes e Joana Vasconcelos trouxeram o léxico do ornamento para as mais relevantes instituições de arte e galerias do mundo.
Mais do que uma tendência, esse retorno ao ornamento é marca de uma época que busca integrar valores básicos, como apreço a modos de vida simples e mais integrados com a natureza, a um refinado senso estético e valorização da boa produção intelectual. Há algo de muito inclusivo no ornamento. Já foi dito que, por sua universalidade, ele é um Esperanto visual, algo que é compreendido por várias culturas (e por várias épocas).
Quatro artistas demonstram como a arte atual está interessada na retomada das referências populares ornamentais. São elas:
Silvana Mello

Gaúcha residente em São Paulo, seus trabalhos em suportes como azulejo, tela, bordado e vídeo-animação refletem suas histórias pessoais e a trajetória conturbada de sua vida. Silvana trabalhou como vendedora de loja, assistente e depois tatuadora, ilustradora para revistas e ajudante na equipe de estilo da Cavalera. A bagagem artística veio da vida, retratando em seus traços e desenhos suas emoções. O conhecimento provém unicamente da experiência, da captação do mundo externo e interno pelo sentidos. Sobre seus bordados, conta: “É a coisa mais sem técnica. Não sei bordar. Desenho e vou preenchendo com linha de costura ou de bordado”, revela, mostrando que sua arte é experimental na execução. Pra Silvana, isso é vestígio de quando era punk e fazia suas próprias roupas – “rasgava aqui, botava fogo ali” – e tinha que fazer isso com total separação de teoria e prática.

Em seus trabalhos é possível observar uma espontaneidade natural, em que a produção (in)consciente das obras é voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia: há ainda uma certa agressividade embutida em cada ponto e nó que ela dá nas telas, que aparece em figuras (quase sempre carregadas da estética dos anúncios da década de 50) ou frases. Em suas criações, consulta suas memórias e sentimentos, reunindo experiências boas e ruins e as expressa por meio da imagem de mulheres fortes, que cuidam de seus filhos e famílias; em busca da sua felicidade e bem-estar. Ela não se poupa de buscar referências em revistas, fotografias, familiares, amigos e bancos de imagens. Embora não intencionalmente, as obras tem grande repercussão no universo feminino, justamente por conta dessa pesquisa.
Em seus bordados, utiliza um grande bastidor com algodão bem grosso esticado, que recebe um esboço do desenho preenchido a linha, patchwork, botões antigos, flâmulas vintage e itens que a artista encontrou em uma lata de costura de sua mãe.
Carolina Ponte

Nascida em Salvador, Carolina reside atualmente em Petropolis, RJ. Seus desenhos e esculturas moles oferecem um tempo que estava quase perdido: a duração que se vivencia na atividade de fazer crochê. Para nós que vivemos no tempo das mensagens instantâneas em banda larga, é um alívio lembrar que o tempo pode assumir outras formas, menos ariscas, menos pontiagudas, e passar devagar, construindo nós intricados com linhas coloridas. As esculturas nascem dos nós das agulhas de crochê, misturando formas planas a tubos tridimensionais coloridos que pendem do teto. Os desenhos exibem figuras concêntricas (o crochê é muito afeito a círculos) feitas de minúsculas unidades, como os pontos que se desprendem da agulha. Quando são coloridos, esses desenhos começam como manchas de tinta acrílica sobre papel. A esse fundo informe, Carolina Ponte sobrepõe linhas feitas com caneta preta, que vão desenhando as correntinhas, os pontos cruzados, o zig-zag, criando uma teia ornada com vários padrões.

Essa escultora tecelã cria um universo muito particular, utilizando o crochê como uma forma de desenhar com mais fluidez. Ela aprendeu a fazer crochê porque queria roupas novas para suas bonecas.
Veja o catalogo da exposição individual de Carolina Ponte na Galeria Zipper aqui.
Adrianna Eu
Nascida no Rio de Janeiro, cidade onde reside e trabalha, Adrianna se difere das artistas aqui listadas por não bordar, tecer, ou emendar um tecido no outro, mas ao utilizar a linha e o fazer supostamente feminino para estabelecer um processo de construção do próprio corpo e das relações de afeto. São proposições que procuram materializar o desejo, colocando em evidência a ambiguidade existente em tal processo através dos contrastes entre materiais e objetos, delicadeza e brutalidade, ternura e erotismo, toque e olhar.

Sua carreira foi marcada pelos encontros na casa da escultura Louise Bourgeois em NY, resultando numa série de pesquisas e trabalhos germinados naquele momento.
Ana Linnemann
Ana Linnemann é formada em Design pela PUC-RJ e recebeu o mestrado em Escultura pelo Pratt Institute, em NovaYork,onde residiu até 2006.

Na série Pedras bordadas [XS] a artista apresenta dez exemplares feitos de fatias de pedra sabão – refugo das grandes pedreiras de Minas Gerais – que, furadas, tornam-se entretelas para bordados de flores em ponto de cruz, com linha de seda e algodão coloridos. Os desenhos foram tirados de manuais do gênero. Neste conjunto, o foco não é mais a invisibilidade, mas o cruzamento de materiais de espécies opostas, pedra e seda.

“O meu trabalho acontece em uma espécie de temperatura de fusão, onde significados se comportam como em estado líquido, amálgamas em constante transformação. A idéia é sempre ajustar, em um único objeto, elementos de diferentes áreas de nossa existência e lidar com os problemas de identidade que surgem desta interação. E, afastando o espectador do conforto do hábito, provocar um estranhamento às atividades e objetos do cotidiano.
Pelos últimos anos, eu tenho costurado pedras, servido de alfaiate para espaços sem corpo, colocado zíper em folhas secas. Também motorizei cordões de pérolas para que funcionassem como uma orquestra.
Esse processo exige precisão. Cada peça deve consolidar aspectos de áreas desconexas de nossa experiéncia, mantendo-se, no entanto, completamente natural, como se suas novas e improváveis identidades sempre tivessem sido uma possibilidade oculta. Ao deslocarmos elementos de um campo para outro, a intenção seria sugerir uma cadeia de aberta de significados que se reagrupam como pérolas de um colar quebrado, um após o outro mas não necessariamente na mesma ordem.”